Previsões apocalípticas da velha imprensa não resistem aos números

“Aeconomia brasileira vai na contramão do mundo.”
“Inflação surpreende e mercado cogita Selic ainda mais alta.”
“Taxa de investimento do Brasil deve ser menor que a de 82% dos países em 2022.”  

Na semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou uma realidade diferente da veiculada pela velha mídia. A economia do Brasil cresceu 1% no primeiro trimestre, na comparação com os três meses anteriores. Diante do mesmo trimestre de 2021, o avanço foi de aproximadamente 2%. Em valores correntes, o PIB chegou a quase US$ 1,8 trilhão (cerca de R$ 9 trilhões, na cotação atual).

O crescimento do PIB foi puxado pelo setor de serviços, que voltou a se aquecer com o fim do isolamento social. Os desempenhos relativamente negativos vieram da agropecuária, que recuou quase 1%, em virtude da estiagem em várias regiões do país nos últimos meses, da queda em investimentos e importações.

André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, explica que a queda nos investimentos se deu em virtude do aumento da inflação. “Ela está muito alta para os produtores”, disse. “O empresário não consegue repassar custos. Dessa forma, vê o próprio lucro cair e não tem por que investir.” Segundo Perfeito, à medida que a inflação for caindo, os investimentos sobem.

O resultado alvissareiro do PIB levou o Brasil de volta ao top 10 das maiores economias do mundo da agência classificadora Austin Rating. O crescimento do PIB ficou acima da média de países como Estados Unidos, França e Japão, que tiveram retração.

 “O resultado no primeiro trimestre descarta qualquer possibilidade de o PIB ter uma retração neste ano”, constatou o economista Luís Artur Nogueira. Segundo Nogueira, os dados obrigaram muitos analistas a reverem para cima suas estimativas. “Neste ano, teremos um crescimento um pouco baixo da economia, mas muito melhor do que alguns previam”, observou. “Teve até banco falando em uma recessão econômica.” Nogueira disse que o governo federal tem de continuar no combate da inflação, “que corrói o poder de compra das pessoas”, para o país crescer mais rápido.

A alta da inflação não é uma jabuticaba brasileira. Outros países estão sofrendo com a alta dos preços

O Ministério da Economia e o Banco Central já haviam dado sinais de que o PIB do Brasil cresceria no período. O governo estima ainda que a economia vai aumentar pouco mais de 1,5% neste ano. O Executivo ressalva que o crescimento deve ocorrer em ritmo mais lento, em virtude da invasão russa à Ucrânia e da volta dos lockdowns na China, o principal parceiro comercial do Brasil. Apesar das notícias reconfortantes, os analistas do “consórcio de imprensa” garantem que as coisas “vão piorar”.

A seguir, os números da economia brasileira que ganharam pouco ou nenhum destaque na mídia tradicional.

Desemprego

Segundo o IBGE, a queda no desemprego no Brasil foi maior que nos países do G20. O índice caiu de quase 15% para 10,5% no trimestre encerrado em abril de 2022. O desemprego está no menor nível desde 2016 — ou seja, retornou ao patamar do governo Dilma. Em comparação com o trimestre fevereiro, março e abril, foi a menor taxa desde 2015. Em números absolutos, o Brasil tem cerca de 11 milhões de desempregados.

A boa notícia mais recente veio nesta semana: 200 mil empregos formais foram criados em abril. A quantidade veio acima da expectativa do mercado. É uma alta na comparação tanto com março (88 mil) quanto com abril de 2021 (quase 90 mil), segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.

Dívida pública

A dívida que inclui a Previdência Social, os Estados e os municípios está em níveis anteriores aos da pandemia. Conforme o Banco Central (BC), as contas do setor público tiveram superávit de aproximadamente R$ 40 bilhões. O superávit primário ocorre quando as receitas com impostos superam as despesas. O BC informou que o resultado é o melhor para os meses de abril desde 2001 — até então, o maior saldo positivo havia ocorrido em 2021 (R$ 25 bilhões). 

O saldo positivo foi atingido em um mês de arrecadação também recorde para abril. No mês passado, o valor somou cerca de R$ 200 bilhões — favorecido pela expansão do nível de atividade econômica e pela inflação. Há poucos dias, o Ministério da Economia divulgou um estudo ressaltando o papel das reformas, como a da Previdência e o teto de gastos, na melhora das contas públicas do Brasil, além da digitalização de serviços — fator que gerou uma economia de R$ 3 bilhões.

Agronegócio

Um dos setores mais importantes da economia brasileira e responsável por alimentar cerca de 800 milhões de pessoas no mundo, o agronegócio cresceu quase 8,5% em 2021. Representou cerca de 30% do PIB, a maior participação desde 2004. Em linhas gerais, o agronegócio produziu quase R$ 2,4 trilhões.

No ano passado, a balança comercial do agro também fechou positiva, com saldo de R$ 105 bilhões — cerca de 20% maior que em 2020, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Um saldo positivo deve voltar em 2022. De acordo com o Ipea, de janeiro a abril deste ano, o agronegócio exportou quase US$ 15 bilhões, contribuindo para um superávit de quase US$ 14 bilhões no saldo da balança comercial do setor. Isso representou um crescimento de 15% em comparação com o mesmo mês de 2021. Já as importações totalizaram US$ 1,3 bilhão no mês, com alta de 12%, na comparação interanual. A balança comercial teve saldo positivo de pouco mais de US$ 8 bilhões em abril.

 Investimentos Direto no País

Os Investimentos Direto no País (IDP) avançaram 23% em 2021, totalizando quase US$ 50 bilhões em investimentos estrangeiros. Além do retorno de investimentos brasileiros no exterior, o IDP é formado por recursos da participação no capital e por empréstimos diretos concedidos a filiais de empresas multinacionais no país. Em 2020, os investimentos estrangeiros no país somaram cerca de US$ 40 bilhões.

Os dados mais recentes do BC mostram que, em fevereiro deste ano, o IDP já teve o melhor resultado para fevereiro dos últimos 27 anos. A entrada líquida de recursos no país somou quase US$ 12 bilhões, o maior valor para o mês da série histórica, iniciada em 1995. 

Inflação e taxa básica de juros

Os isolamentos sociais e os lockdowns decorrentes da pandemia de coronavírus, mais a invasão russa à Ucrânia, levaram a um desequilíbrio na escala de produção mundial que interferiu nos preços dos produtos. No Brasil, nos últimos 12 meses, a inflação teve alta de 12,10%, acima dos 12,03% do levantamento anterior. A inflação mensal de maio foi de 0,4% — cerca de metade do que previam todos os economistas e os analistas de banco.

A alta da inflação não é uma jabuticaba brasileira, como noticia a imprensa. Outros países estão sofrendo com a alta dos preços. O Reino Unido, por exemplo, tem a maior inflação em 40 anos; os EUA, a maior em 41 anos; e a Alemanha, referência em austeridade fiscal, a maior inflação em 50 anos. 

Para tentar conter a inflação, os Bancos Centrais decidiram aumentar a taxa básica de juros, o que acaba comprometendo o desempenho da indústria e desestimulando o consumo e a tomada de empréstimos. 

Mercado imobiliário brasileiro

O lançamento de imóveis residenciais perdeu o fôlego nos primeiros meses deste ano. O setor, que apresentou um crescimento constante no lançamento de novos imóveis entre o segundo semestre de 2020 e o segundo semestre de 2021, voltou a desacelerar. No ano passado, os lançamentos avançaram quase 26% em relação a 2020, chegando a pouco mais de 260 mil unidades. No mesmo período, as vendas cresceram quase 13%, para 261 mil unidades. O ciclo da taxa de juros, hoje em 12,75% ao ano, contudo, tende a comprimir a renda do consumidor e encarecer a aquisição do imóvel.

Perspectivas para o futuro

Depois da divulgação do IBGE, a maioria das instituições financeiras subiu as previsões para o crescimento da economia e a geração de empregos em 2022. A incógnita, porém, é sobre até onde vai o fôlego dessa recuperação do setor de serviços, que tem o maior peso no PIB, e se há chance de a indústria voltar a crescer. Alan Ghani, economista-chefe da corretora SaraInvest e professor do Insper, diz que a indústria ainda sofre por causa dos efeitos dos lockdowns. “Para ela voltar a crescer, será preciso controlar a inflação e, em consequência, termos uma Selic mais baixa”, constatou. “Isso pode demorar um pouco.”

Outra medida que vai fortalecer a economia brasileira é a aprovação de reformas no Congresso Nacional, defende Gustavo Segré, jornalista e consultor econômico. Ele lamenta que muitas delas estão paradas no Parlamento, sobretudo porque o Brasil está em ano eleitoral. “É preciso um empurrão na reforma tributária, por exemplo”, disse Segré, ao salientar sua importância para o equilíbrio das contas públicas na melhoria da vida da população. “De todo modo, gosto do que o governo vem fazendo até o momento, ao conter o crescimento da dívida pública, gerando superavit. É o que o Brasil precisa: um Estado menor e eficiente.”