Escolhas erradas minaram as pré-candidaturas de Sergio Moro e João Doria. A ideia de “candidatura alternativa” perdeu a seriedade no país.

Em novembro do ano passado, a edição 88 de Oeste mostrou que políticos do PSDB se digladiavam para escolher quem seria o candidato à medalha de bronze nas eleições presidenciais. Ao pelotão tucano, juntaram-se o ex-juiz Sergio Moro, o eterno candidato Ciro Gomes, os senadores Rodrigo Pacheco e Simone Tebet, entre outros frequentadores de manchetes de jornais. Passados quatro meses, é provável que nenhum deles termine a corrida.

Essa ciranda de nomes foi uma tentativa de criar a inédita “terceira via” eleitoral no Brasil. Ou seja, alguém que surgiria para quebrar a polarização de uma campanha já desenhada: o presidente Jair Bolsonaro e o petista Luiz Inácio Lula da Silva vão decidir o páreo. Se a vitória será mais ou menos apertada, é impossível prever tão cedo, apesar da insistência dos institutos de pesquisas. Mas um dado é real: a “via alternativa” não vingou.

Quem chegou mais perto da construção de um projeto viável foi Sergio Moro: arrumou um partido (Podemos) capaz de bancar sua campanha eleitoral e dar alguma sustentabilidade em Brasília. E ainda detém a preferência de uma pequena fatia da imprensa que guarda memória do juiz da Lava Jato.

Hoje, contudo, Moro não é nem sombra do enorme boneco inflável exibido em sua homenagem nas manifestações da Avenida Paulista. Era uma época em que os “meninos” do Movimento Brasil Livre (MBL) discursavam em caminhões contra a corrupção e terminavam ovacionados. Moro chamou o grupo para o seu palanque.

Ao associar sua pré-candidatura ao MBL, Moro demonstrou mais uma vez ser um especialista em decisões erradas. Assim como foi o desastrado desembarque do governo Bolsonaro, as pífias acusações de interferência na Polícia Federal entregues para a TV Globo e a ladainha das “rachadinhas”. A série de entrevistas que concedeu até agora tem demonstrado que ao ex-juiz falta vocação para a política. Mas nada foi pior do que a escolha do deputado estadual Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, para ser o seu candidato ao governo de São Paulo.

Áudios devastadores

Arthur do Val é o assunto mais comentado nas redes sociais — e até na imprensa mundial — há uma semana. Chegou a virar notícia no The Guardian. Em vez de se preocupar com suas tarefas na Assembleia Legislativa, como buscar recursos e oferecer ajuda aos municípios paulistas, ele decidiu ir para a guerra na fronteira com a Ucrânia. Qual o plano? Ao lado de Renan Santos, coordenador do MBL, promoveria uma “vaquinha virtual” para amealhar recursos para as vítimas do combate.

A exposição nas redes foi enorme, inclusive com uma inexplicável imagem ao lado de pilhas de garrafas vazias. Diz a legenda: “Nunca imaginei que um dia nessa vida ainda faria coquetéis molotov para o Exército ucraniano”. Se ele e Renan Santos sabiam produzir bombas caseiras ou não, pouco importa. A foto diz muito sobre alguém eleito para um cargo público que se comporta como frequentador de balada paulistana no meio do horror da guerra.

O saldo declarado da arrecadação na internet foi de R$ 280 mil. Mas o prejuízo provocado pela divulgação de um áudio sexista sobre mulheres ucranianas que fugiam do bombardeio russo ainda é incalculável.

Ao desembarcar no Brasil, o deputado deparou com o estrago causado pelas suas falas. Algumas não foram reproduzidas aqui por respeito ao leitor, mas podem ser facilmente encontradas na internet.

Foi um tiro de canhão na própria carreira política. Virou alvo de mais de uma dezena de processos de cassação do mandato por quebra de decoro. Teve de deixar o Podemos para não ser expulso. Anunciou que não disputará mais o Palácio dos Bandeirantes nem tentará a reeleição para o Legislativo. Afastou-se do MBL. Perder a namorada, segundo ele, foi o pior que lhe aconteceu nessa viagem.

Sergio Moro teve de fazer malabarismo para condenar a atitude do aliado sem romper com o MBL. Até agora, não convenceu. Seu palanque no maior Estado do país implodiu.

O fiasco de João Doria

O governador João Doria é um daqueles exemplos de político que deixa o cargo menor do que quando entra. Foi eleito para administrar um PIB (Produto Interno Bruto) maior do que o de países como a Argentina, principal parceira comercial do Brasil na América do Sul. E fez de sua gestão um poço de vaidade.

O primeiro passo em falso do tucano foi assumir precocemente o papel de inimigo número um de Bolsonaro. As camisetas amarelas do “BolsoDoria”, que o fizeram surfar na onda dos votos do presidente, falam por si só. Semanas depois de estar sentado na cadeira de comando de uma máquina como o Palácio dos Bandeirantes, ele já queria ser presidente.

João Doria em campanha, apoiando Bolsonaro, e em coletiva sobre a covid | Foto: Divulgação

Foi a pandemia, contudo, que colocou Doria num caminho sem volta. Insuflado pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tirou o comando das ações contra a covid do governo federal, o tucano viu na crise sanitária uma oportunidade de se tornar protagonista. Decidiu montar um gabinete de tecnocratas para cuidar da pandemia. Autointitulou-se o “pai da vacina” e começou a fazer pronunciamentos diários. Os mais recentes, como a liberação parcial do uso de máscaras depois do Carnaval, foram feitos no jardim do Palácio dos Bandeirantes, nos moldes da Casa Branca.

À medida que a população foi se cansando das restrições impostas, Doria se tornou refém do seu comitê de especialistas. Mas, em vez de rever a escalada de medidas autoritárias e impopulares, dobrou a aposta. Dois anos depois do início da pandemia, São Paulo ainda tem escolas e faculdades fechadas, e a adesão às vacinas de reforço perdeu fôlego.

Resta ainda um punhado de candidatos de si mesmos. Quem melhor veste essa camisa é Ciro Gomes

Paralelamente, o tucano enfrentou desgaste no PSDB. Venceu o gaúcho Eduardo Leite nas prévias, mas o partido saiu fraturado. Ao se empenhar demais na pré-campanha presidencial, Doria esqueceu de pavimentar a eleição do sucessor, o desconhecido vice, Rodrigo Garcia. Depois de três décadas, a chance de o PSDB perder o Palácio dos Bandeirantes é real.

Os figurantes

Resta ainda um punhado de candidatos de si mesmos. Quem melhor veste essa camisa é Ciro Gomes (PDT), que vai concorrer pela quarta vez ao Palácio do Planalto. Desde 1998, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi reeleito, Ciro acha que foi injustiçado, porque é ele quem tem o melhor plano de desenvolvimento para o país. Há quatro anos, ficou em terceiro lugar, com 13 milhões de votos (12,5%).

Para a disputa deste ano, foi convencido pelo marqueteiro do petrolão, João Santana, de que deveria investir no público jovem. Tem feito lives semanais, intituladas Ciro Games, mas até agora quase ninguém apareceu para jogar com ele. Os mais jovens nem querem mais participar das eleições.

A imprensa tradicional também testou outras opções. Do Senado, já foram citados o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (PSD), e Simone Tebet (MDB). No primeiro caso, quem plantou a ideia nas páginas de jornais foi Gilberto Kassab, presidente do PSD. Os colunistas de Brasília e Minas Gerais gostaram e publicaram que Pacheco poderia ser o novo Tancredo Neves. Nesta semana, ele jogou a toalha. Kassab imediatamente lançou outro balão de ensaio na mídia: disse que vai filiar Eduardo Leite para concorrer.

Já Simone, filha do ex-presidente do Senado Ramez Tebet, é lembrada pela possibilidade de ter uma mulher na disputa. O MDB, porém, fará como sempre: aguarda o vencedor para se declarar governista em troca de ministérios e estatais.

O Novo escolheu o ex-tucano Felipe d’Avila como representante, depois da crise causada por João Amoêdo. A sigla tem outras prioridades: a reeleição do governador Romeu Zema em Minas, além de um bom desempenho de Paulo Ganime, no Rio de Janeiro, e Vinicius Poit, em São Paulo, o que favorecerá a eleição da bancada de deputados.

Não se deve esquecer que, há pouco tempo, a mídia ainda tentou passar verniz de seriedade nas candidaturas de apresentadores de televisão, como Luciano Huck, José Luiz Datena e Danilo Gentili, e do ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta.

Faltam sete meses para as eleições. E a terceira via continua bloqueada.