Cerca de 40% do gás natural europeu vem dos gasodutos controlados por oligarcas russos que respondem diretamente a Putin.

Havia uma grande preocupação entre os líderes da Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, em julho de 2018. Os presidentes dos países da organização, criada em 1949 para deter o avanço soviético, estavam empenhados em evitar uma grande ameaça, que poderia paralisar o mundo: o aquecimento global.

O encontro na Otan parecia assumir que a instituição vivia uma crise de identidade: qual era, afinal, o objetivo de uma aliança militar criada contra os russos se nenhum líder ocidental parecia ver mais os russos como inimigos? Sem discutir sequer estratégias, era mais um dos vários encontros de líderes para discursar para a mídia, falando de problemas que só interessam à elite.

Naqueles tempos que parecem antigos, Donald Trump quebrou mais uma vez o protocolo. Ao encontrar-se com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, o então presidente norte-americano criticou o fato de a Alemanha pagar apenas 1% do seu PIB para a Otan, enquanto os EUA pagavam 4,2% de um PIB bem maior. O encontro inteiro, ao contrário do esperado, foi filmado para o público.

Mas havia uma crítica mais pesada: a Alemanha trocava o carvão e a base nuclear de sua indústria por modelos verdes — mais de um quarto da sua geração de energia é eólica. Mas mesmo Angela Merkel, uma engenheira nuclear convertida ao ambientalismo radical, não deixou de importar gás da Rússia pelo gasoduto russo-alemão Nord Stream desde 2011. Em uma aliança militar, Trump falou de impostos norte-americanos — mas também de uma crise séria, já que a Alemanha e a França estavam de mãos atadas graças ao gás do Gigante Branco.

Segundo Trump, a Otan deveria proteger os países europeus de sua dependência da Rússia, pois enriquecer e dar poder ao seu “algoz” era inaceitável. Gerhard Schröder, ex-chanceler alemão, depois de passar pelo banco de investimentos Rothschild & Co, havia se tornado presidente do conselho da Nord Stream AG, o que Trump considerava um conflito de interesses. Stoltenberg apenas afirmou que a Otan negociar com a Rússia tornava-a mais forte.

Histórico de trapalhadas

Naquele ano, a guerra russo-georgiana completava uma década, sem muita clareza para a Otan de quais conclusões deveria tomar sobre o conflito. Em 2009, no ano seguinte da guerra, o então presidente norte-americano, Barack Obama, iniciava sua política de reaproximação com a Rússia, chamada de “Reset”com um tratado prometendo “Um Novo Começo” a partir do ano seguinte. Hillary Clinton, a secretária de Estado, ficou encarregada de entregar, em Genebra, um simbólico botão vermelho ao decano da diplomacia russa, Serguei Lavrov, que ambos apertaram conjuntamente. Em uma gafe diplomática com caráter premonitório, além da palavra reset, estava escrito no botão também a transliteração para o russo — mas a palavra “peregruzka” inscrita, na verdade, significa “sobrecarregado”. Tal como a paciência russa com a fraqueza ocidental.

Líderes fracos facilitam ações de ditadores fortes

Este foi apenas mais um capítulo na longa série de erros do Ocidente — os países que podemos chamar de mais civilizados do mundo, hoje afogados em ideologia — ao lidar com o Grande Urso Branco que hoje ameaça a Ucrânia — e, por consequência, todo o mundo livre. Vladimir Putin havia aplicado seu conceito de “geografia sagrada”, uma interpretação do mundo a partir do poderio russo, que precisa ressurgir e “guiar” o planeta em um “novo começo” para o “século russo”. E viu na fraqueza de Obama, Hillary, Merkel e outros líderes ocidentais a prova suprema de que era hora de passar da economia para a ação militar.

O modelo de nacionalismo de Putin evoca um tribalismo primitivo não muito distante da mitologia reformada do nazismo, no qual os direitos individuais são sacrificados constantemente por uma mística “pátria mãe”. O apelo retórico a uma nova Rússia forte, anti-imperialista e antiliberal, encontra eco na esquerda radical que busca um controle da vida privada dos indivíduos como Lenin e Stalin o possuíam. Ao mesmo tempo, sua crítica à decadência ocidental e o retorno ao antigo Império Russo não raro granjeia apoio até mesmo na direita, totalmente desesperançosa de algum renascimento de valores espirituais no Ocidente.

Se Biden prometera, uma semana antes da invasão russa, que não envolveria tropas norte-americanas na Ucrânia (ao contrário de Síria, Líbia, Afeganistão, Iraque etc.), havia várias razões ocultas. Em primeiro lugar, o escândalo envolvendo o laptop de seu filho, Hunter Biden, entupido de segredos de Estado, que parecem incluir negociações das famílias Biden e Clinton com oligarcas ucranianos para lavagem de dinheiro do monopólio de gás na região. Mas também havia o fato de que a Europa está totalmente dependente da Rússia. Cerca de 40% do gás natural europeu vem dos gasodutos controlados por oligarcas russos que respondem diretamente a Putin.

Putin iniciou a guerra na Ucrânia alegando pensar na “segurança da Rússia” (o que é mais ou menos o mesmo que o Brasil se preocupar com a segurança contra o Suriname)

Nas duas últimas décadas, a Europa diminuiu a produção e a importação de energias fósseis e de fonte nuclear para evitar o “aquecimento global”. Mesmo a energia eólica ou solar, que depende do clima (e cujos componentes são chineses), precisa de gás de reserva para não gerar apagões nos países mais ricos da Europa. E o veto ambientalista à compra de gás natural liquefeito (GNL) gera total dependência da Rússia — em vez de poder comprar gás da América. Qual desses países iria destruir sua economia e sua política para proteger a Ucrânia neste momento? Gerhard Schröder, na última semana, insistiu que a União Europeia não cortasse vínculos com a Rússia. Quem irá admitir agora que Trump estava certo na Otan há longevos quatro anos?

Uma medida que teria refreado os ímpetos de Vladimir Putin é um tabu entre norte-americanos — e misteriosamente não é comentada na mídia brasileira: as sanções que Donald Trump havia aprovado ao gasoduto Nord Stream 2que poderiam ter feito Putin pensar duas vezes antes de se enfiar em uma guerra custosa agora. Biden revogou as sanções tão logo chegou ao poder, enquanto Trump afirmava que o gasoduto russo-alemão havia sido “o maior erro” de Angela Merkel.

Para compensar a falta de gás nos EUA e na Europa, bastaria ter continuado com o projeto do oleoduto Keystone, entre o Canadá e a América, mas grupos ambientalistas pressionaram Obama, em 2015, contra o uso de combustíveis fósseis que “aumentam o aquecimento global”, freando deliberadamente a sua construção. Apesar de Trump ter tentado retomar o projeto em 2017, Biden assinou uma ordem executiva no ano passado revogando a permissão. Hoje, Putin continua com praticamente um monopólio sobre a energia europeia. Os civis ucranianos que estão sendo mortos ao menos não sofrem com o aquecimento global.

Guerra agora, aquecimento global fica para depois

Vladimir significa “aquele que possui o mundo”. Há um dito usado como frase de autoajuda de banheiro, mas sem o qual é difícil sobreviver no complexo tabuleiro geopolítico: é preciso conhecer o inimigo. Os líderes ocidentais recentes — Obama, Biden, Merkel, Macron, Trudeau, Boris e companhia — não parecem grandes estudiosos de alguém capaz de “possuir o mundo” como Vladimir Putin. O que parecia o menos culto de todos, Donald Trump, foi quem melhor soube lidar com os russos: tratá-los como aliados temporários contra o Estado Islâmico, e ao mesmo tempo bombardear bases sírias quando a Rússia usava seu poderio para favorecer um ditador como Assad. É de fato risível pensar em Macron estudando o eurasianismo, ou em Kamala Harris tentando compreender a relação de Putin com Heidegger ou com a escola perenialista — bases intelectuais da sua política.

Putin não é alguém simples: Obama, por exemplo, acreditava que podia simplesmente deixá-lo feliz com uma política de “reset”, crendo que estaria tratando com um igual em termos do mundo democrático e liberal. Mas Putin — e os russos em geral — não fala literalmente a mesma língua e não tem os mesmos conceitos e objetivos. As relações diplomáticas entre os dois logo azedaram, e o autocrata russo só foi se tornando cada vez mais poderoso.

Putin iniciou a guerra na Ucrânia alegando pensar na “segurança da Rússia” (o que é mais ou menos o mesmo que o Brasil se preocupar com a segurança contra o Suriname). Putin fala até do “direito” dos ucranianos de se submeterem à Rússia. Mas, enquanto o Ocidente poderia ter feito muitas coisas contra o projeto militar, cultural e político de Putin se começasse a estudá-lo e compreendê-lo, os russos simplesmente anexam cidades e invadem países com bombas.

Alguma hora será urgente que o Ocidente se preocupe menos com banheiros trans, identidade de gênero nas Forças Armadas e pronomes neutros (a emissora de televisão norte-americana CBS chegou a reclamar da “transfobia” que mantinha uma “mulher trans” em Kiev por conta de leis discriminatórias) e mais em entender o que de fato está matando as pessoas. Talvez esta guerra seja mais urgente para salvar a humanidade do que painéis solares para evitar o aquecimento global.