Quem é do meio acadêmico ou literário em algum momento observou alguma ação de um militante identitário e pensou: “Meu Deus, essa pessoa tem sérios problemas mentais”. Vou dar um exemplo de anos atrás, que me ficou na memória como um desses choques iniciais. Uma professora doutora concursada, de Literatura, poetisa reconhecida, publica um texto em rede social com uma grave denúncia de racismo: ela entrara no elevador e a vizinha que estava dentro comentou que ela estava cheirosa. Aí você pausa e tenta entender como isso é um problema. Pausa, revê os clichês das lamúrias usuais, dá uma olhada nos comentários para entender o que vai na cabeça daquela gente. E pronto: dada a existência da expressão racista “cheiro de preto”, negros complexados entendem que todo mundo acha que eles têm “cheiro de preto”. Por isso, a única explicação possível para uma negra ouvir “como você está cheirosa!” é a presunção de negros serem fedidos.

Por aí se vê que a vida de alguém assim é triste e paranoide. Pois ela não é capaz de ouvir palavras gentis e sorrir. Tudo, absolutamente tudo, pode ter uma explicação malévola. Se a vizinha não falasse nada, seria por não querer se misturar com pretas, vistas como subalternas. Na verdade, me pergunto até se ela tem a capacidade de fazer algo por si mesma por puro bom humor. Umas senhoras podem passar perfumes bons por gostarem do cheiro; outras podem ser paranoicas com a questão do “cheiro de preto” e colocar perfume para tentar se defender do mundo. No fim, a defesa ainda falha, pois nada será capaz de lhe tirar da cabeça a ideia de que o mundo a despreza. A pessoa seguirá amargurada e, na tentativa vã de aplacar o próprio sofrimento, irá exigir cabeças e difamar os outros.

Explicação comum não convence

Aqui o leitor mais compassivo irá dizer algo como: “Pobre vítima! Na certa, sofreu muito com o racismo e por isso é assim”. Assim, se alguém sofrer muito com um determinado problema grave, tal como o racismo, esse alguém será um amargurado. Será?

É um raciocínio parecido com “Fulano é um bandido por causa da pobreza”, no qual a pessoa, inadvertidamente, afirma uma relação causal generalizada para explicar um fato particular, sem querer saber se esse fato particular é norma ou exceção. Trocando em miúdos, para explicar a má conduta de um, acaba-se imputando essa má conduta a todos. Ora, se a maioria dos pobres não é de bandidos, então resta claro e evidente que a pobreza não é, em si mesma, causa de banditismo. Há bandidos que nasceram em berço de ouro; há uma montanha de pobres dignos e honestos.

Além disso, a pobreza tem gradações. Podemos dizer que Fulano e Beltrano são pobres, mas que Fulano é mais pobre do que Sicrano. Se a pobreza fosse em si mesma causa de banditismo, seria de esperar que, quanto mais pobre, mais bandido fosse um indivíduo. Essa é uma correlação muito questionável, já que o banditismo violento tem custo (fuzil não dá em árvore). Se fosse assim, seria de esperar que a zona rural nordestina fosse sempre mais cheia de bandidos violentos do que a cidade do Rio de Janeiro. Ora, isso foi verdade durante o Cangaço, mas não é mais. Sem dúvida há mais pobreza num município rural do interior do Piauí. Mas lá não se encontra nada comparável à guerrilha urbana carioca, com bandidos disputando bocas a tiro de fuzil.

Assim, esse tipo de explicação deve enfrentar as mesmas perguntas. É verdade que todos os que sofreram discriminação se tornam ressentidos paranoicos e amargurados? Se for verdade, deve haver uma correlação entre maior discriminação e maior rancor.

Minhas senhoras e meus senhores, tenho insistido que o Holocausto está fora de moda. Eu me recuso a acreditar que uma professora doutora concursada reconhecida por suas atividades literárias, nascida no Brasil, mais particularmente na Bahia, onde não compõe minoria étnica, tenha sofrido mais discriminação do que judeus europeus sobreviventes do Holocausto. Se houvesse essa correlação entre sofrer racismo e ser um paranoico amargurado, Primo Levi jamais levantaria a cabeça, nem conseguiria escrever com leveza sobre algo tão pesado quanto a rotina num campo de extermínio. A senhora de Letras não passou por nada que chegue aos pés disso. Nem ela, nem qualquer identitário brasileiro vivo. Primo Levi, Paulo Ronai, Viktor Frankl, são vítimas do racismo que passaram por campos de extermínio e esbanjaram amor à vida depois disso.

Então não, não é possível explicar essa mentalidade amargurada desse jeito.

Psiquiatra na causa

O psiquiatra forense Lyle Rossiter publicou em 2006 a obra Liberal Mind – The Psychological Causes of Political Madness, traduzida para o português como A Mente Esquerdista – As Causas Psicológicas da Loucura Política (Vide Editorial, 2016). É mal escrito (muito repetitivo) e mal traduzido (cheio de erros como verter “eventually”, que significa “no fim das contas”, como “eventualmente”; ou traduzir “age” como “era” quando cabia “idade”), mas a leitura vale a pena.

A própria tradução de “liberal” como “esquerdista”, embora seja boa por motivos culturais, merece discussão. O tradutor deveria pôr uma nota informando ao leitor da sua escolha e explicando-a. De fato, “liberal” nos Estados Unidos designa um grupo político que no Brasil chamamos de esquerda. Trata-se da Nova Esquerda, ou da esquerda progressista e identitária. Como “liberalismo” no inglês dos Estados Unidos é um termo ambíguo, Rossiter chama o progressismo de “liberalismo moderno”, por oposição ao liberalismo clássico, que preza pela descentralização do poder.

O autor corrobora essa percepção do senso comum segundo a qual há um problema sério de saúde mental num militante de causas identitárias. Ele é um seguidor de Erik Erikson, psicólogo de formação psicanalítica reconhecido como autoridade no assunto do desenvolvimento psicossocial do homem. O êxito na educação de uma criança é, para Erikson, a autonomia. E esta, para Rossiter, é tanto um ideal de criação quanto o ideal original dos Estados Unidos.

Rossiter é um observador do cenário cultural do seu país. O fenômeno que clama por explicação, para ele, é a mudança de valores: o ideal de autonomia, que moveu os Founding Fathers e seduziu europeus para a imigração, foi aos poucos substituído pelo ideal de cuidados estatais.

Esta última concepção é incompatível com o ideal de autonomia. Numa sociedade que presume cidadãos autônomos, é possível acreditar que as pessoas, por livre e espontânea vontade, se organizem para cuidar dos desvalidos. Numa sociedade coletivista, presume-se que as pessoas jamais fariam o bem por vontade própria e têm que ser coagidas por um Estado benevolente.

Todo militante estatista, portanto, é uma pessoa que não acredita na disposição espontânea dos homens para fazer o bem. Acha que têm de ser todos coagidos para tal.

Do individual ao social

Por que os coletivistas pensam desse modo? Como bom herdeiro de Freud, Rossiter crê que o problema remonte à relação com a mãe. Bebês nascem completamente indefesos e dependentes da mãe. Eles choram e esperam ser atendidos. Se não forem atendidos, morrem. Por isso a conexão com a mãe é um assunto de extrema ansiedade.

Se nas primeiras fases de desenvolvimento o bebê se sentir rejeitado, isso afetará sua visão de mundo drasticamente. Um “otimismo fundamental” marca a vida daquele que foi amado na mais tenra idade, já que ele aprendeu a confiar. Por outro lado, aqueles que não tiveram essa conexão bem estabelecida, irão crescer com uma neurose que lhes causa muita aflição e buscarão por meio da coação a proteção contra o abandono.

Cito Rossiter:

A agenda radical é o produto de uma enorme neurose de transferência levada às arenas econômica, social e política do mundo. Dentro deste drama [peça?] o esquerdista [liberal] radical está protestando contra seu sistema econômico, social e político original, que é sua família de origem, porque a mesma o privou, abusou ou negligenciou. […] Em alguns esquerdistas radicais esta transferência torna-se abertamente paranoica: a desconfiança progride para a suspeição, depois para a convicção de que está sendo vitimizado, e por último para ilusões fixas de perseguição.

Bom, não sei se é verdadeira, mas esta é uma explicação plausível para sobreviventes do Holocausto serem mais alegres do que uma professora negra identitária. Não seria o racismo a causa da sua amargura, mas deficiências graves no desenvolvimento infantil nunca superadas. Ter uma boa mãe não impede ninguém de ser capturado pelos nazistas. Impede, porém, de remoer o racismo sofrido. Por outro lado, não ter tido quem a amasse na infância faz da pessoa uma amargurada. Se encontrar algum fator externo para usar como bode expiatório, irá se agarrar a ele e repisá-lo, para dar sentido ao próprio sofrimento e à própria vida.

Um doido desses, sozinho, é digno de pena. Um aglomerado de doidos organizados é um perigo para as liberdades democráticas, pois se juntam para derrubá-las. E uma vez que consigam tomar o Estado, o problema tende a aumentar, pois as neuroses progressistas minam a família e fomentam o surgimento de lares de gente doida em que ninguém vela pelas crianças. Que vão ser outras doidas, e assim sucessivamente.