A religião moderna, essa ordem planetária, pandêmica, não quer que o homem se conheça a si próprio, pois não o quer em consonância com a liberdade. Então, prometendo-nos ou nos fazendo “livres”, a nós, escravos, destrói-nos; aprendendo a vida, quer escravizá-la e assim também destruí-la…

Todos aqui tiveram ou ainda têm de passar pela escola, seja ela no calor das nossas casas, com professores particulares, seja nas instituições de ensino que se espalham por aí. Não é uma escolha participar dessa opulenta catequese, mas uma exigência, uma obrigação legal e social. E, mesmo que alguém escape do “direito” de se formar, não recebendo oficialmente a comunhão das mãos dos sacerdotes da educação, ainda assim, informalmente, receberá o catecismo daqueles que o circundam: de toda gente da obrigação, que espalha a palavra e encontra sua dignidade na instrução de quem carece dela, ou simplesmente daqueles que repetem o que todo mundo fala. Há programas, filmes, jogos, desenhos, músicas, vizinhos etc., tudo construído sobre o solo da academia moderna, seguindo o projeto da moral educacional. Ninguém de fato escapa.

Sou também alguém que participa da ordem. Sou professor. E, embora os meus colegas e grande parte dos teóricos da educação insistam em dizer que a escola de maneira alguma pode ser confundida com um edifício religioso, utilizando para isso exemplos e modelos do liberalismo pedagógico e os resultados da mais alta metodologia científica, não consigo vê-la de outro modo. Minhas razões para isso não são nada sofisticadas e sua divulgação pode não satisfazer os critérios necessários para o estabelecimento de um saber científico; elas são, por isso, descompromissadas, de modo que só farão sentido – e talvez tenham alguma utilidade – para aqueles que, naturalmente desajustados, permaneçam incapazes de serem ensinados. Por isso, permito-me expô-las aqui, contando um caso recente.

Conversando com os meus alunos, perguntei-lhes se seriam eles capazes de ter algum domínio sobre o próprio pensamento, no sentido de poderem pensar apenas no que quisessem ou precisassem. A resposta mais imediata foi “sim”, pois os nossos pensamentos são aquilo que temos de mais íntimo, como não poderíamos dominá-los? “Por que, então, temos pensamentos ruins, que nos põem medo e nos abalam, ou por que nos lembramos do que pode nos deixar mal? Além disso, por que muito facilmente nos desconcentramos em uma situação que exige a nossa atenção e os nossos pensamentos?” Não souberam mais o que dizer. “Se não somos donos dos nossos pensamentos, quem o é?” Muitos responderam: “o cérebro, pois é ele que pensa”. “Têm certeza?”, perguntei-lhes. “Sim, se o pensamento vem da nossa cabeça, é o cérebro que o produz.”

Àquela altura, todos pareciam muito satisfeitos com a resposta dada. Eu, porém, como tem ocorrido algumas vezes, vi-me um pouco decepcionado. Não apenas porque muito claramente todo mundo ali asseverava coisas sobre o que nem de longe podia ter alguma compreensão, mas também pela preguiça de pensamento que a atitude demonstrava. Tornei, então, a falar. Porém, antes de anotar aqui a apelação, cabe um aviso: o que direi agora soará mal, meio ridículo, meio ingênuo, para a grande maioria das pessoas, justamente porque já fomos catequizados e, assim, porque muito naturalmente encontramo-nos dentro da ordem. A pergunta é sutil e de certo modo indecente; por isso, precisaria de ouvidos despudorados para ser bem entendida.

Vendo-os um pouco ansiosos com a minha demora, perguntei-lhes: “quem aqui já viu um cérebro pensando?” Não quis dizer “o próprio cérebro”, mas um cérebro qualquer. Quem já viu um cérebro pensar? O que significa dizer isto, “o cérebro pensa”? Escutando-me, os alunos riram, como se eu lhes estivesse perguntando um absurdo, algo sem sentido. Todos sabem que a cabeça pensa ou, melhor, que o cérebro, o órgão que reina em nossas cabeças, pensa. Não importa se vemos acontecendo ou não, pois quem duvidaria disso que nos falam e que parece fazer todo sentido?

A pergunta era bastante simples, mas ninguém me respondeu, pois, sem ter o que dizer a não ser assumir que nunca o haviam visto, os alunos sabiam que perderiam a justificativa para a resposta anterior. Ninguém nunca viu um cérebro pensar; ainda assim, olhavam-me como se estivessem diante de um louco que lhes promovia um disparate. Insisti, para corroborar com aquela visão da insanidade: “por que vocês acreditam nisto, que o cérebro pensa?” “Porque já foi provado que é assim”, alguém disse, arriscando.

Não quero entrar no mérito da questão, pois não acho necessário. O ponto é que vejo na escola apenas isso: disse-me-disse. Alguém disse isso, alguém provou isso, alguém pesquisou aquilo… E mesmo quando os alunos são de algum modo incitados a pensar por si próprios, os professores instituem os caminhos possíveis para esse pensamento, antevendo, é claro, o ponto a que devem chegar: aquele ponto a que alguém disse que alguém chegou. Se isso não é crença, certeza, fé cega em uma narrativa, uma doutrina, então alguém por favor me diga o que é.

Pode até haver alguma liberdade, uma liberdade de criação nas atividades escolares, mas sem dúvida haverá limites – que muito naturalmente são incorporados por aqueles que os encontram. O que são esses limites? Esta questão é importante, pois sua resposta pode ajudar a entender por que os alunos riram quando lhes perguntei se o cérebro pensa.

Esses limites são a moral moderna (também chamada por alguns pensadores de “decadência” ou “má consciência”), isto que nós não sabemos como surgiu, mas que é dona das nossas decisões e parece arrastar tudo que vemos para uma mesma direção, como um vento forte contra o qual é quase impossível lutar. É o vento da condição histórica do homem; melhor: é o homem, a sua humanidade, é a metafísica, o progresso. É o vento que nos arrasta e nos enclausura em seu silvo escolar. Esses limites são a estrutura de toda religião moderna, isto é, de todo cientificismo; eles são aquilo que diz o que temos de dizer.

A moral moderna não é uma entidade que nos comanda ou algo do tipo, mas é a cegueira (histórica, metafísica) do homem: é aquilo que o faz crer que, em alguma medida, ele pode controlar algo, controlar a vida, nem que seja na forma de uma compreensão (a compreensão da vida). É a cegueira que o convence de que ele vê algo, que ele tem domínio sobre a sua situação e sobre o mundo, que ele é livre para pensar e livre para tomar as suas decisões. É a cegueira que o aferrolha e o escraviza à perniciosa ideia de que o homem é ou pode ser senhor de si.

Não me cabe seguir em outra direção, muito menos desdenhar desses limites, pois tudo isso, embora puramente humano, parece nos sobrevir como uma força não humana, maior do que somos. Aliás, assim também são os nossos pensamentos: humanos, mas não é o homem quem os domina e controla. Resta-nos, portanto, nos perguntar: para onde o vento está nos levando? Ou, ainda: onde estamos, afinal?

Talvez os meus alunos nunca tenham querido saber de onde vem o pensamento e tampouco o que ele é, mas muito naturalmente dizem “é o cérebro que pensa”. Eles também não sabem se alguém provou aquilo que afirmam, mas dizem que foi provado e, mesmo que tenham de fato ouvido algo a respeito, não sabem nada sobre o seu caminho de prova, que pode ser “obscuro” e, quase sempre, questionável. É no mínimo estranho, pois esperamos das crianças aquela honestidade natural, sempre iluminada por sua inocência, que nos faz lembrar o famoso conto de Andersen As roupas novas do Imperador, em que, no meio da comoção gerada sobre o evento de apresentação das sofisticadas vestimentas imperiais, apenas uma criança pôde dizer o óbvio: o imperador está nu.

Ora, não é assim. As crianças mentem, fantasiam, comprazem-se em falar sobre o que não sabem. Estivessem no conto do Andersen algumas que conheço, teriam dado, além das roupas, várias asas ao imperador e o feito voar perigosamente diante de todos. Mais: pudessem, estariam confeccionando junto com os “tecelões” que o enganaram, sem no entanto pedirem ouro em troca, gozando apenas do prazer de tecer com fios imaginários. Aliás, é isso, esse não querer nada em troca que está em jogo no conto, nada mais, nada menos. O tecer com fios imaginários é o que sustenta o conto e o que, em essência, a criança faz. E não há nada de errado nisso; pelo contrário, está aí o milagre, a vida: a mentira, a fantasia, a arte, o sentido fundamental de transcendência, a única razão para que tenhamos podido algum dia ver e falar sobre nós mesmos e sobre o que nos circunda – para não dizer que é a própria razão para a existência.

Entendamos bem: afirmar que vida é mentira não é colocá-la em contraposição à verdade, não é dizê-la falsa em relação a algo que seja o verdadeiro. Dizer que vida é mentira é dizer que não há nela nada de substancial, não há nada sustentando-a, isto é, vida é livre, livre para a sua própria criação. A liberdade da vida é justamente a verdade: uma abertura, uma porta através da qual tudo deve se tornar o que é, através da qual vida deve ser ela mesma: criação.

A liberdade nunca é vista, porque ela é justamente aquilo que faz com que tudo seja como é, e na medida em que cientificamente nós a identificamos como algo, como uma “coisa”, uma “situação”, então nós nos tornamos cegos para ela. A vida, assim, perde a sua dimensão transcendental e imerge em uma pretensa e abstrata ideia de imanência…

A vida, assim, perde a sua dimensão transcendental e imerge em uma pretensa e abstrata ideia de imanência…  

Mas este meu falatório já deve ter deixado de fazer sentido. Quem hoje é capaz de ver a vida nesta perspectiva? Já fomos todos chafurdados nas aulas da modernidade imanentista, como poderíamos pensar em transcendência? Ora, a nossa religião não deixa!

A questão que quero colocar, assim, não é a da falta da mentira, da criação, pois a vida está sempre aí, mas justamente a da escravização da vida: o fato de, por exemplo, as crianças terem de ser também autoras de um tipo de vida que se impõe e de certo modo vampiriza todo o resto, um tipo de vida substancialista, que não é capaz de entender o fundamento livre da criação e nos faz crer que a vida precisa ser sustentada, precisa ser mantida, administrada. Aliás, é como se não apenas as crianças, mas todos fossem cúmplices dos “tecelões”, trabalhando, sem que o saibam, para que o manto imaginário do imperador, construído à sua medida, ou seja, nos limites da moralidade moderna, recubra tudo que há. As crianças mentem, inventam, criam, fazem vida, em nome da verdade, em nome disso sobre o que o homem não tem domínio, pois vida é livre, é testemunho da liberdade, mas a escola as ensina que verdade e mentira são contrapostas e que a verdade é a cientificidade. Assim, a vida está para sempre esquecida.

Certa vez, em um exercício de criatividade, acontecido durante uma aula de Língua Portuguesa, vi os alunos escrevendo sobre a Lua, criando mitos a seu respeito. Era possível inventar o que quisessem, desde que tivesse relação com a Lua. No entanto, não puderam ir muito longe, pois, embora em algumas situações a Lua tenha sido antropomorfizada e ganhado outras faces, ainda assim, no fundo, figurava a ideia – nada natural – de que ela é uma rocha enorme que flutua ao redor da Terra e de que, por sua movimentação e atração, responde, em parte, pelo crescimento das plantas e pelas marés. Pois bem, teriam eles de fato observado a Lua, ou simplesmente adornaram aquilo que já “conheciam”? Cadê a criatividade, a observação, a visão, a vitalidade?

Além disso, ainda que algo de realmente original tivesse sido vislumbrado – sabe-se lá como –, tudo isso aos poucos teria sido apagado pelas aulas de Ciências, que servem como a polícia da aprendizagem, cuidando para que tudo ande nos limites: se algo os ultrajar, o ato deve ser encarado como devaneio pueril, como arte, como literatura ou como qualquer coisa que supostamente não possui realidade, verdade, e assim condenado ao exílio acadêmico – podendo retornar apenas como um estudo de caso, uma pesquisa, uma desculpa para ganhar uma bolsa científica, mas nunca como realidade.

O cientificismo é o grande responsável por tirar a vida da arte, isto é, tirar a vida da vida. A arte – a arte nobre! – sempre foi a alma e o valor da vida.

Poderíamos agora nos perguntar: quem é que sopra o vento que nos arrasta? Não faltarão aqueles que dirão que é o capital; outros, que é a técnica, a utilidade, a conveniência etc., mas isso ainda é apenas a poeira levantada pelo vento, é o manto imaginário que recobre a vida. Outros dirão que é a ciência, mas, embora sob o seu nome tenha crescido todo cientificismo, jamais ela quis ser alguma coisa, pois a genuína Ciência é um esforço de mostrar a vida, nada mais, nada menos. Ciência, neste sentido (sufocado e morto), é arte.

Quem, então, sopra o vento? A verdade é que não há quem o sopre. O que se faz em vento é o que mais intimamente nós, homens, somos: soberba, presunção, arrogância. Ao mesmo tempo em que o nosso espírito venta, também por ele somos arrastados. Neste sentido, este vento é sempre a medida do espírito humano, que por seu caráter fundamental se impõe diante da vida e a “vê” a seus pés. Sem dúvida, uma loucura, um delírio que se manifesta na obsessiva ideia de que a vida tem de ser corrigida ou no mote degenerado de que a vida se corrige a si mesma, como vemos nas aberrações evolucionistas. Ora, o que não é a medicina e, mais geralmente, a política? Querer corrigir a mentira e o “errado” ou achar que eles irão se corrigir é, na verdade, querer acabar com eles.

Séculos de história e educação, muita escola, matemática, livros e mais livros, bibliotecas inteiras, universidades, sociedades, muito humanismo, progressismo… tudo isso que temos vivido sob o nome da verdade tem lutado justamente para acabar com a mentira.

Vejamos! Neste momento, um vírus – que ninguém vê – tem matado milhões de pessoas, entre as quais talvez tenhamos alguns dos nossos. Há, porém, os corretores da vida, que desenvolveram uma vacina capaz de preparar o nosso corpo contra a infecção viral e fortalecer mais do que tudo a esperança daqueles que se veem vulneráveis – isto é, fortalecer a ideia de que ainda se pode vencer a vida. Ninguém sabe o que é ou o que significa o vírus, ninguém sabe exatamente o que é e como funcionam as vacinas, mas quão ofensivo não se tornou dizer isso? Aliás, não tomar a vacina pode ser visto como um atentado contra a “vida”. Ou seja, não querer – supostamente – corrigir a vida tem se tornado, cada vez mais, um delito, uma profanação. Vê-se que o negócio ficou feio quando aqueles que são contrários à vacina, isto é, aqueles que – supostamente – teriam alguma desconfiança contra esse cenário doentio, fazem-no a partir de uma narrativa igualmente nefasta: “é preciso deixar a vida se corrigir” – isto quando não tentam atacar cientificamente a cientificidade da vacina.

Não é novidade essa disposição, digamos, corretiva. A soberba não surgiu de agora. Todos queremos acabar com a vida, não a suportamos – nós, escravos, não suportamos a liberdade! –, e por isso deixamos surgir e ganhar força esses absurdos modernos: capitalismo (que cresce com o slogan nada secreto “nós temos a solução para os seus problemas”, isto é, “nós o podemos corrigir”), comunismo e todo tipo de “remédio” para os nossos defeitos.

A maior prova de que estamos todos perdidos e não aceitamos a vida é justamente a nossa tentativa de contrapô-la à morte, como se fossem situações e, em alguma medida, âmbitos distintos. Ora, sabemos algo da morte para que ajamos assim? Não a experimentamos, não a vemos, e ao mesmo tempo não nos cansamos de afirmar algo a seu respeito. Prova disso é o temor que ela nos desperta. Pois bem, entoando o espírito socrático, como não nos questionarmos sobre a arrogância de temer aquilo que desconhecemos? Temendo a morte, não estaríamos agindo como se soubéssemos tudo a seu respeito?

Alguns poderão dizer que na verdade temos medo do desconhecido, por isso o receio da morte, mas isso também é absurdo, pois não é possível temer o que não se conhece. Quando estamos no escuro, por exemplo, não tememos o fato de não vermos nada, mas aquilo que podemos encontrar ou o que nos poderá acontecer – e tudo isso a gente já conhece, pressupõe, imagina. O escuro e por isso a morte são a nossa insegurança, a nossa falta de controle, falta de domínio sobre a vida – somos nós.

A religião moderna, essa ordem planetária, pandêmica, não quer que o homem se conheça a si próprio, pois não o quer em consonância com a liberdade. Então, prometendo-nos ou nos fazendo “livres”, a nós, escravos, destrói-nos; aprendendo a vida, quer escravizá-la e assim também destruí-la…

Diante desse colosso, quem teria coragem ou, melhor, quem teria olhos para ver e dizer o óbvio: “não há o que pense”? Ou, ainda: “por que o pensamento precisa de algo para acontecer?”; “o que é isso que chamamos de ‘cérebro’?”. Pois, na verdade, não há cérebro se não houver antes o pensamento (o pensamento sobre o cérebro, isto é, a criação, a invenção, a mentira sobre o cérebro). Para que saibamos o que é um cérebro, ele já precisa estar pensado. Isto não soou como a fala de um louco? Novamente, quem teria coragem para afirmar o óbvio? Talvez apenas aqueles que estejam em consonância com a vida, com a liberdade: aqueles desescolarizados, pobres de espírito, que reconhecem em si a miséria e abjuram o humanismo – aliás, não seria este o verdadeiro sentido da religião (não moderna)?

Luiz Alberto Thomé Speltz Filho é graduado em Direito, Filosofia e Matemática, mestrando em Letras e Filosofia, e editor do periódico “Héstia”.