Começar um texto com um clichê dói, só que clichês são inevitáveis. Por que? Porque a vida é uma eterna repetição. Um campo propício para o frequente. Pois bem, vamos a ele: a vida é feita de sentimentos. Alguns deles completamente rotineiros, outros incomuns e alguns raríssimos. No último sábado eu senti uma dessas raridades que puxam o cérebro para dentro do coração e afogam qualquer tipo de racionalidade. Perdi um amigo que nunca tive, faleceu o produtor Moraes Jr.

Como se perde um amigo que nunca se teve? Ah, vou explicar em memória da amizade que não aproveitei, mas que me fez sofrer razoavelmente com sua partida.

Moraes Jr era um amigo virtual. Ao longo deste tempo, trocamos algumas impressões sobre algumas notícias. Acredito que era leitor do blog. Acredito, não tenho certeza. Nunca falamos sobre isso.

Por mais que escondam, todos neste mundo admiram algumas pessoas que não conhecem. Se o destino for generoso, conhecem. Não conheci Moraes pessoalmente. No entanto, tenho a impressão que a realidade neste caso é só um cisco no olho. O que vale é o que eu sinto, minhas fantasias e a minha imaginação. Não, desta vez a racionalidade não tem vez. Não sou escravo de diretrizes mentais, não mais.

Moraes era uma pessoa doce, singela e inteligente. Ora, ora… Eu aqui fazendo ilações sobre alguém que não conheci. Ilações para vocês, claro. Eu tenho a sensação mais absoluta desse mundo que o conhecia. Chego a lembrar dos cafés, das risadas. Das memórias, de suas histórias. E eu narrando as minhas. Era um bom amigo…

Lembram do cérebro afogado dentro do coração? Pois é, essas lembranças são os olhos abertos embaixo das emoções. E a realidade é apenas um cisco que não perturba quando estamos submersos.

Vá em paz, meu amigo. A sinceridade não me permite desejar que nos encontremos no futuro. Eu não acredito em além e rezo todos os dias para que não exista reencarnação. Se hoje está assim, definitivamente eu não pretendo viver no futuro.

Você faz parte do que eu mais prezo em mim mesmo e o que me impede de certo erro incontornável: a minha imaginação. Vá em paz, amigo que eu nunca tive.

Aconteceu, mas não foi real. Pior se não tivesse sido, não é?

Descanse em paz.