A humanidade se deparou com um vírus que provocou o desandar em tudo.

O vírus é misterioso, invisível a olho nu, insípido, inodoro, incolor, mas terrivelmente poderoso na capacidade de transmissão.

Como ele afeta cada pessoa é uma incógnita. Somente depois do encontro com ele é que cada um sentirá ou não os seus efeitos.

Com uns é imperceptível. Em outros, leva à morte.

O vírus é antitético de tudo o que é estar juntos: confraternizar, beijar, abraçar, cumprimentar etc.

É um vírus que, na sua intransparência, fez exsurgir para muitos, transparentemente, um mundo tão desigual, materialmente, como jamais de imaginava.

E é certo que ele estava por aí a nos empreitar, não se sabe, com certeza, onde (na natureza ou num laboratório?).

Especificamente, os coronavírus são velhos conhecidos da ciência e, são tantos e por toda terra, que não se tem como enumerar os já identificados ou, quiçá, criados ou recriados.

Os vírus são nossos parentes, pois fomos iguais a eles ou somos derivados deles. No princípio era o …

O vírus da vez tira o direito fundamental de liberdade de ir e vir, a nos mandar para a “prisão domiciliar” e só nos julga depois de passar por nós, com a decisão/sentença de morte ou liberdade, mas sem que deixe as suas impressões digitais marcadas em nosso corpo com os rastros da imunidade representada pelos anticorpos. Na verdade quem nos salva somos nós mesmos, com a sentença de vida dada pelo vírus ou com ajuda da vacina, que é um vírus fake ou um vírus do bem.

E impressiona muito o fato de que nós, o homo sapiens, ser a única forma de vida que é atingida de maneira que tenha alguma importância. A vida continua lá fora de nós como se não houvesse o vírus.

Andar pelas ruas se tornou uma experiência quase cientifica, como se estivéssemos em laboratórios de pesquisa, ou na guerra, armados com álcool em gel, luvas e máscaras.

Não há como negar: é a maior pandemia vivida/sentida pela humanidade. Veloz como nenhuma outra, chegou a todos.

Ao (s) Estado (s) incumbe primeiro salvar as pessoas; depois mantê-las vivas; em seguida procurar saídas para a crise financeira. Sem isso o Estado deixa de fazer sentido. Seria necessário começar do zero que, é quase certo, não existe mais, pois já andamos muito e perdemos o DNA do primeiro momento.

É verdade também que o corona que ora nos atormenta é apenas uma das zoonoses que temos presentes e identificadas (HIV, Ebola, gripe aviária, gripe suína, MERS, SARS, febre do Rift Valley, vírus do Nilo Ocidental, vírus do Zika etc.).

No Brasil, o nosso SUS, tão menosprezado, tem sido a nossa salvação. É o nosso “gigante pela própria natureza”, cujas células são os trabalhadores da saúde que, tal como o SUS, são belos, fortes, impávidos colossos. Que o futuro do SUS espelhe essa grandeza.

O presidente do Brasil quer o povo todo armado, mas quase nada fez pelas armas fundamentais contra o coronavírus. E os 450 mil ou mais que morreram/morrerão pelo covid-19, não deveriam estar armados de mais SUS? É como o presidente disse e continua a dizer: “E daí?”. Bem, o nosso presidente é o que sempre foi e será – um relativamente incapaz – (ninguém foi enganado nesse ponto), e a nossa Constituição só permite a cassação, a perda ou a suspensão dos direitos políticos nos casos de incapacidade civil absoluta (art. 15, II). Resta ao Congresso, à PGR e ao Poder Judiciário corrigir rumos, pois não mais será a história e lhes cobrar, mas o passado recente e presente de todo dia. Ao povo, resta esperar a sorte do julgamento das urnas.

O vírus gerou uma crise sanitária que, necessariamente, provocou uma grave crise financeira.

E o estado mínimo? O covid-19 destruiu/desmoralizou essa tese. Um retorno a Keynes?

Os governos tiveram de se “endividar”. Não adiantou querer tributar, pois não se tinha como pagar. Não havia renda, o patrimônio evaporou. As reservas tiveram de ser usadas, afinal, reservas, devem servir para isso. Ao invés das leis do livre comércio, das suas reservas, presente estava somente o Estado para conceder créditos para as empresas, subsídios para manutenção de empregos, dinheiro distribuído para o povo sobreviver, subsídios para a pesquisa e produção de vacinas etc. Vejam só, tudo isso para poder salvar a economia que, segundo os teóricos do estado mínimo, deveria ser entregue ao livre mercado. Como diz Roger Scruton, “as verdades mais evidentes também são as mais difíceis de explicar.”, pois como explicar que o mercado dá conta de tudo se, novamente, foi ele absolutamente incapaz e o Estado é que foi o senhor da resolução dos problemas, inclusive os do mercado/iniciativa privada.

É o surgimento de uma nova economia?

Nos dias da pandemia cada dia que passa é um Ano Novo, um desejo de abraçar um Ano Novo amanhã, sem o cononavírus.

E onde deu errado, onde erramos, nesses tempos de revolução da inteligência artificial, da biotecnologia e da engenharia genética, afinal os coronavírus não eram desconhecidos e, em outros momentos, já estivam por aí. Por que não se fez as vacinas para estes outros coronas que apareceram? Faltou dinheiro para “pesquisas de virologia e zoonose”? O Estado mínimo não poderia/deveria custear e, como não havia demanda, o livre mercado não o faria.

Veja-se que em 2018 Bill Gates fez apelos para que o governo “acumule fármacos antivirais e terapias com anticorpos que possam ter condições de conter rapidamente e parar a propagação de doenças pandêmicas ou curar as pessoas que foram expostas; o mundo inteiro precisa se preparar para as pandemias da mesma forma que os militares se preparam para a guerra”.

Scott Z. Burns disse que “Mas todos os especialistas com quem falei me disseram que não se tratava de saber se isso poderia acontecer, mas de quando.”.

Todavia, a humanidade não fracassou apenas nas ciências, pois hoje ainda temos o racismo, ainda se fala e temos ditaduras e “espíritos” fascistas.

Impossível pensar em evolução civilizatória enquanto ainda houver um joelho de um Derek Chauvin a sufocar, pelo pescoço, um George Floyd, até a morte. “I can’t breathe” (“Não consigo respirar”). Não dar para esquecer Eric Garner quando disse “eu não consigo respirar”.

E quantos “não consigo respirar” foram pronunciados no “pulmão da terra” por falta de oxigênio para os contagiados pela covid-19?

No Brasil, como dito pelo Ministro do STJ Rogerio Schietti Cruz (HC 580653 – PE (2020/0111168-5)), “O recado transmitido é, todavia, de confronto, de desprezo à ciência e às instituições e pessoas que se dedicam à pesquisa, de silêncio ou até de pilhéria diante de tragédias diárias. É a reprodução de uma espécie de necropolítica, de uma violência sistêmica, que se associa à já vergonhosa violência física, direta (que nos situa em patamares ignominiosos no cenário mundial) e à violência ideológica, mais silenciosa, porém igualmente perversa, e que se expressa nas manifestações de racismo, de misoginia, de discriminação sexual e intolerâncias a grupos minoritários.”.

Diante da crise sanitária global não já seria o momento de uma governança global?

Eu sou e sempre fui um cético, é verdade.

O coronavirus e/ou as suas consequências não são um mal em si. Aliás, não são um mal em qualquer circunstância, pois são apenas um dado da vida. Uma consequência da existência de vida.

Eu não quero o contato com o vírus. É um ato de proteção, covardia ou egoísmo? Prefiro acreditar que é apenas um instinto de sobrevivência, um hiperbólico apego à vida, um vício pela vida (um dia, nos idos de 1990, fiz a seguinte anotação numa agenda que ainda hoje guardo: “A vida mais é que a eternidade de morte”).

Eu tenho medo. Medo de morrer sem poder respirar, de pronunciar “eu não consigo respirar”. De ser colocado numa câmara frigorifica antes de ser enterrado numa vala/cova comum e sem a presença e o olhar dos parentes. Sem funeral.

É a realidade. Enterros sem funerais, sem despedidas de corpo presente.

Nunca antes tivemos tão de frente com o “antes de” e o “depois de”, pelo menos para a atual geração. Não tem vacinas suficiente para todos. No Brasil, ainda não chegamos na nova era, a do “depois da Covid-19”. Ainda estamos no passado e, é quase certo, que entraremos em 2022 ainda no passado.

Impressiona que para alguns ficarem em casa, lavarem as mãos e usarem máscaras foi preciso a morte de muitos. E muitos ainda morrem porque tudo se faz a favor do vírus. Inacreditável.

É certo falar que, nalgum lugar, será possível falar: no começo era o caos. Noutro, a fala é: ainda estamos no caos.

São tempos difíceis, de tal forma que até os que promovem curas e vendem salvação desapareceram. Não seria o momento de se reinventar, acrescentar às “penitências” e orações etc. a assistência aos mais pobres, um pouco de estudo, tal como o direito penal faz nas suas penas para crimes de menor potencial ofensivo ou para diminuir a pena? Um tema bom para pensar: o direito penal e as religiões.

E quando a humanidade estava/está prestes a ruir não aparece nenhum profeta a dizer que chegou o nosso fim. Todos os profetas, assim como nós, querem mesmo é uma vacina para salvá-los dessa maldição não dita, não antecipada, por eles. Até estes querem a vacina para, vivos, no futuro, continuarem a propalar o juízo final.

Vivemos um momento distópico.

O isolamento fez deixar mais claro o quanto hoje estamos ligados as máquinas, como advertia Habermas faz mais de 60 anos.

E nos dias presentes é fácil constatar que Harari está certo quando afirma que o empreendimento da humanidade sempre foi na base da cooperação.

De outro lado, não voltaremos para onde estávamos e nem teremos como dar continuidade de onde paramos. Será tudo novo, como sempre foi, mas com as marcas do passado. Heráclito, o filósofo grego, já dizia isso faz tanto tempo (Lembram? “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.”). Não há como apagar os anos que se passam. É ilusão imaginar que o passar do tempo muda a história. Há uma continuidade. Eles ficam gravados para sempre, servem para o presente e sobretudo para o futuro. Os anos de 2020, 2021 e, quiçá, 2022, ficaram marcados em nós como “tatuagens marcadas a chicote”. Foram e serão anos muito duros e violentos. Continuarão singularmente marcados em nós amanhã e para sempre. “Tudo flui”.

O vírus afasta, provoca a ausência de comunicação entre as pessoas.

Assim como o vírus, a ignorância e a desinformação afastam a comunicação correta/verdadeira, quando não efetivamente censura, pois a ignorância e desinformação é também uma forma de privar, censurar o conhecimento, a informação.

O vírus acelerou a infodemia (epidemia de informações falsas).

Impressiona muito perceber que na era da internet, onde o conhecimento está em alta e totalmente disponível, a internet tenha servido exatamente para o inverso, para proliferar, exponencialmente, a ignorância, a desinformação, a censura do que é necessário saber.

A desinformação e a ignorância censuram, pois não permitem que a verdade apareça. Tal como o vírus, impedem a colaboração, afastam e silenciam as pessoas.

A pandemia do covid-19 passará. A desinformação e a ignorância são uma constância que a cada dia de amplia, alimentada pela evolução do ser humano no âmbito dos meios de comunicação. Quanto mais conhecimento e possibilidade de acesso a ele, mais a desinformação e a ignorância prosperam.

O vírus associado à ignorância e desinformação, quando agem com eficiência, censuram o conhecimento do futuro. Matam o devir, eles privam a respiração.

A ignorância e a desinformação ocultam a verdade e a mentira, e tudo vira um caos. Na ignorância e na desinformação não há cooperação.

Como encerramento, um verso livre para homenagear a ignorância:

Vá prá rua

A mãe terra está superpovoada

Ela precisa de ti

A mãe terra está quase esgotada

Não seja egoísta como eu

A covid-19 é a salvação dos egoístas

A mãe terra precisa de ti.