Empresa não viu problema em planejar polêmica nacional e atirar família recém-formada no meio da fogueira em nome de publicidade gratuita

Passados alguns dias após a polêmica envolvendo Natura/Dia dos Pais/Thammy Gretchen, a impressão que fica é que a empresa sacrificou sem rodeios uma pessoa em nome de sua publicidade. Era óbvio que Thammy seria alvo de um tsunami negativo. Era claro alça-lo ao posto de “pai do ano” iria causar muito mais impacto publicitário do que debate social sério. O fato é que a Natura atirou o jovem pai dentro de uma casa em chamas, sentou e observou os efeitos que a tragédia pessoal PLANEJADA E CONSTRUÍDA PELA EMPRESA teria no público.

E foram enganados aqueles que acham que a intenção da Natura era tentar dar a Thammy e pais na mesma situação dele a chance de “representação”. Por sua história e paternidade recentes era óbvio que alçá-lo ao posto de “pai do ano” iria causar mais debate e discussão do que despertar sentimentos de inclusão social e representatividade.

Pode ser que no futuro Thammy Gretchen seja sim um modelo de pai que defende os filhos e a família. É completamente aceitável a possibilidade de que ele se torne um exemplo de amor e cuidado. Só que esse tempo não é hoje!

O filho de Thammy sequer completou um ano. É completamente irresponsável (ou malignamente premeditado) elencar um pai de filho nessas condições, seja hetero, gay, trans, alienígena, ao posto de representante de todos os pais do país em qualquer campanha publicitária que seja.

Thammy, entusiasmado, amoroso e orgulhoso como todo pai de primeira viagem, sequer deve ter percebido a arapuca em que a Natura pretendia jogar sua família em troca de publicidade gratuita.

E torno a dizer: pode ser que em cinco ou dez anos Thammy seja sim digno do posto. E o inverso também é possível. Pode ser que em poucos meses abandone a família e despreze o filho. Mas essa é uma questão que apenas ele, enquanto pai e chefe de família, poderá definir.

Uma empresa do porte da Natura sabia muito bem dos efeitos que sua campanha teria. Sabia muito bem que essa representatividade de Thammy estava sendo forjada e forçada. Sabia que a polêmica seria grande e que, consequentemente, a exposição gratuita da empresa era inevitável. Sabia que a vida de Thammy, da sua esposa e de seu filho recém-nascido sofreriam com a ação de marketing da empresa.

A Natura sabia de cada milímetro de sofrimento dentro desses milhares de quilômetros de dor que essa situação iria causar a Thammy.

Entre a autopromoção e a exposição cruel de uma família, a Natura fez a escolha pela agonia alheia.

Conseguiu sua publicidade gratuita ao mesmo tempo que traumatizou o pai de um garotinho de poucos meses de vida.

A Natura é uma empresa cruel. Que sirva de exemplo à comunidade LGBT, negros, índios e demais minorias: empresas inescrupulosas como a Natura não irão excitar em usá-los como outdoors para suas marcas, mesmo que isso signifique o sofrimento de vocês.