Nesta semana que passou um colega de infância morreu. A notícia me veio em situação completamente transloucada. Morrera em circunstâncias horríveis, deploráveis, como grande parte dos meninos e meninas que brincaram comigo pelas ruas de alguns bairros morreram e hão de morrer.

Estranho você ver, daquela forma, alguém que remete à sua infância. Lancheira, farda de escola, papagaio, videogame. Éramos crianças tão vivas, tão comuns. Ele lá, daquele jeito.

Desde aquele dia então deixou de ser, se tornou um nada. Tanto que parece que não mais importava, nem mesmo aos seus mais próximos, a sua ausência. Pelo menos aparentemente e pelas circunstâncias.

Enquanto a cidade bebia, cantava, transava e se divertia, eu passei algumas horas recordando de rostos. De todas as crianças que um dia tiveram qualquer contato com a criança que eu fui. Recordações e expectativas sobre que tipo de adultos elas se tornaram.

Éramos apenas crianças…

E pelas circunstâncias daqueles tempos, provavelmente poucos estavam naquele momento com a cabeça em um travesseiro, bem alimentados e em uma cama confortável. Todos com seus problemas, suas frustrações, seus temores e seus erros imperdoáveis a carregar até o último dia.

Adultos agora, eu acho…

Onde as encruzilhadas se apresentaram para não ser eu ali naquela vala? Que curvas o destino fez para direções opostas para que não fosse um de nós, que éramos apenas crianças antes, naquele vídeo? Por que sou eu agora aqui sentado escrevendo? Por que não era eu naquela delegacia? Atrás daquela banquinha? Ou sentado o dia inteiro naquela calçada?

E foram chegando tantas lembranças felizes de um tempo que eu julgava tão infeliz, tão pobre, tão triste. Junto das lembranças a constatação de que nos tornamos adultos, quase todos nós. Talvez alguns sequer passaram da adolescência. Por simplesmente terem terminado ou ficado aprisionados nela.

Foram chegando ao pensamento as imagens das crianças, dos adultos e de como as coisas mudaram. De como eu mudei, de como ele mudou, de como mudamos e talvez ainda sejamos tão iguais. Porque eu, sinceramente, fecho os olhos e só ouço a gritaria daquele pátio e de você correndo, meu amigo.

Nem sei o que dizer, eu nem sei o que dizer. Queria ter ido ao seu enterro, queria poder ter feito algo, queria que mundo fosse perfeito e que para sempre continuássemos a ser como crianças. Mas, a certeza da distância entre a vontade e a realidade é que dita o quão maduro nós somos.

Talvez você nunca tenha deixado de ser criança. E mesmo que isso pareça uma crítica de imediato, não o é. Até minutos atrás eu defenderia como a maior de todas as críticas. Não é mais e não será mais.

Espero que você tenha alcançado a paz que todas aquelas pessoinhas deveriam ter encontrado se o mundo fosse um lugar melhor.

Adeus, meu amigo